Argumentos clichés anti-aborto atacam novamente

Durante mais um momento de futilidade no Facebook, me deparei com o seguinte compartilhamento:  Uma foto de um bebê abortado ( não sendo a imagem abaixo, que é meramente ilustrativa) e uma mensagem em anexo;



Uma mulher chega apavorada no consultório de seu ginecologista e diz:
- Doutor, o senhor terá que me ajudar num problema muito sério… Este meu bebê ainda não completou um ano e já estou grávida novamente. Não quero filhos em tão curto espaço de tempo, mas num espaço grande entre um e outro…
O médico então perguntou: Muito bem. O que a senhora quer que eu faça? A mulher respondeu:
- Desejo interromper esta gravidez e conto com a sua ajuda. O médico então pensou um pouco e depois de algum tempo em silêncio disse para a
mulher
- Acho que tenho um método melhor para solucionar o problema. E é menos perigoso para a senhora. A mulher sorriu, acreditando que o médico aceitaria seu pedido.
Ele então completou: Veja bem minha senhora, para não ter que ficar com dois bebês de uma vez, em tão curto espaço de tempo, vamos matar este que está em seus braços. Assim, a senhora poderá descansar para
ter o outro, terá um período de descanso até o outro nascer. Se vamos matar, não há diferença entre um e outro. Até porque sacrificar este que a senhora tem nos braços é mais fácil, pois a senhora não correrá
nenhum risco…
A mulher apavorou-se e disse: Não doutor! Que horror! Matar um criança é um crime.
- Também acho minha senhora, mas me pareceu
tão convencida disso, que por um momento pensei em ajudá-la. O médico sorriu e, depois de algumas considerações, viu que a sua lição surtira efeito. Convenceu a mãe que não há menor diferença entre matar a criança que nasceu e matar uma ainda por nascer, mas já viva no seio materno.

O crime é exatamente o mesmo!! 


Sinto muito, mas nem de longe é.

O texto na verdade contém dois furos.

Primeiro: Apontar o aborto como sendo necessariamente um risco para mãe, ainda mais no ambiente médico tal como retratado no texto. Os abortos clandestinos, ai sim são perigosos para vida materna, tal como expõe Drauzio Varella [1]:

A técnica desses abortamentos geralmente se baseia no princípio da infecção: a curiosa introduz uma sonda de plástico ou agulha de tricô através do orifício existente no colo do útero e fura a bolsa de líquido na qual se acha imerso o embrião. Pelo orifício, as bactérias da vagina invadem rapidamente o embrião desprotegido. A infecção faz o útero contrair e eliminar seu conteúdo.

O procedimento é doloroso e sujeito a complicações sérias, porque nem sempre o útero consegue livrar-se de todos os tecidos embrionários. As membranas que revestem a bolsa líquida são especialmente difíceis de eliminar. Sua persistência na cavidade uterina serve de caldo de cultura para as bactérias que subiram pela vagina, provoca hemorragia, febre e toxemia.

Nesse quadro, os anti-aborto tem toda a razão. Caso não tenha dinheiro e terem que procurar métodos ilegais, o melhor é não abortar

Em clínicas especializadas, por exemplo, a maioria dos abortos, no primeiro semestre, ocorrem por Sucção e a Dilatação e Curetagem, no segundo e terceiro trimestre recorre-se à Dilatação e Extracção. São métodos que podem deixar sequelas? Com certeza sim, assim como qualquer cirurgia, desde das mais convencionais, como lipoaspiração e endoscopia. Só para citar os riscos destes dois: Infecção de ferida, abertura de pontos, alteração de cicatrização, deformidades anatômicas, dor no pós operatório, entre outros exemplos.

Qualquer desses procedimentos mal feitos podem causar consequências desagradáveis, não só relacionadas ao aborto. Tanto que existem denuncias nessa "inocentes" operações . Em 1 ano, o CFM – Conselho Federal de Medicina – registrou um aumento de 35% no número de processos envolvendo erros médicos e consequências desastrosas em vários tipos de cirurgias. Tem mais: 10% das cirurgias feitas por cirurgiões  realmente habilitados são para reparar erros cometidos.  Eu consigo ver várias indivíduos anti-aborto alertarem das sequelas do abortamento, sejam em clinicas legais ou ilegais, contudo eu não vejo esses mesmíssimos indivíduos reclamarem dessas estatísticas. E se existe problemas psicológicos envolvendo o aborto, por que não haveria com as outras em relação a cirurgias malfeitas?  Por que não proibir todas as cirurgias então?

Além de que abortos vão ocorrer de qualquer maneira, sendo ou não sendo legais.
Então e legalizarmos o aborto, ira facilitar a gestante ao acesso médico especializado, ao contrario se não legalizar, então melhor ser favorável a adoção legal do aborto.

Segundo, o mais gritante: O texto tenta comparar o aborto como se fosse um infanticídio, algo reservado apenas quando se mata um bebê ou um criança. obviamente. Para quem discute o assunto, já sabe como isso é um absurdo. O feto só está de fato "vivo" após a décima segunda semana de gravidez, quando começa a portar um sistema nervoso complexo o suficiente para  adquirir consciência, ao contrario do bebê. Se a mãe mencionada no texto não tivesse atingido esse ponto ainda, seria admissível abortar a gravidez indesejada. Ademais, o feto é tão "vivo" quanto um esperma, antes dessa fase de gestação, e novamente não vejo ninguém anti-aborto querer criar uma lei anti-masturbação, afinal, aquele esperma poderia ter sido fecundado e virar um bebê, assim como um feto poderia ter sido. Ou ainda incentivar o sexo procreativo a todo momento possível antes de os gametas masculinos morrerem no testículo, já que estamos perdendo "vidas" a cada esperma não fecundado.

Sei que o texto, uma história de apelo à emoção,  nem de longe apresenta argumentos anti-aborto muito fortes, mas nunca deixa de ser necessário os desmistificar.


[1] http://drauziovarella.com.br/mulher-2/gravidez/a-questao-do-aborto/

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