Homossexualidade e a anologia da ilha deserta



Afim de provarem o argumento falacioso de que a homossexualidade vai por fim a humanidade e se deve proibi-la para preservar a espécie, alguns cristãos usam a seguinte analogia: a da ilha deserta. Mas como uma simples análise, podemos perceber o quão falho é a alegação, a tal ponto de eu mesmo conseguir refuta-la com facilidade (sabendo que as minhas refutações não são nada originais). E da mesma maneira, pode se notar que o argumento se volta contra si.



  " Imagine a existência de uma ilha deserta, muito longe de qualquer civilização. Quem for deixado em tal ilha, não pode escapar sozinho, pois não existe qualquer material para se construir um barco, nem árvores. Suponhamos então o seguinte cenário: Cem pessoas, cinquenta homens e cinquenta mulheres, todos homossexuais,  são abandonados neste cenário inóspito. Depois de cem anos, com várias tentativas de sair da ilha frustradas e com nenhum resgate efetuado, qual é a conclusão? Logicamente, não vai sobrar ninguém na ilha. Sem nenhuma taxa de reprodução, devido as relações estritamente homossexuais, os náufragos estão destinados a extinção.Por isso o casamento homossexual não deve ser permitido, vai abalar a própria sobrevivência da civilização"

 Nota-se que trocando poucas palavras, o argumento cai no limbo:

 " Imagine a existência de uma ilha deserta, muito longe de qualquer civilização. Quem for deixado em tal ilha, não pode escapar sozinho, pois não existe qualquer material para se construir um barco, nem árvores. Suponhamos então o seguinte cenário: Cem pessoas, cinquenta homens e cinquenta mulheres, todos estéreis, são abandonados neste cenário inóspito. Depois de cem anos, com várias tentativas de sair da ilha frustradas e com nenhum resgate efetuado, qual é a conclusão? Logicamente, não vai sobrar ninguém na ilha. Sem nenhuma taxa de reprodução, devido as relações não gerarem filhos, os náufragos estão destinados a extinção. Por isso o casamento entre estéreis não deve ser permitido, vai abalar a própria sobrevivência da civilização"

Se o cristão envolvido neste argumento está lutando pelo fim de qualquer auto-ameaça a continuação da espécie humana, por que nós vemos esses seguidores de Cristo soltando criticas raivosas a homossexualidade, e não o mesmo contra os indivíduos estéreis? Fica claro a desonestidade intelectual desses "salvadores" da família tradicional e da humanidade. Eles não estão preocupados com a perpetuação da civilização, e sim de salvar seus dogmas conservadores fora de contexto frente a uma onde liberal recheada de razões. Não é a toa que fiquem apelando para analogias falaciosas como essa, que auto-refutam a pseudo-salvação moral cristã em relação a família.

E uma outra coisa importante de ser notada: No caso da ilha dos homossexuais, a reprodução ainda poderia acontecer sem o minimo problema, ao contrario da ilha dos estéreis. Podemos traçar um paralelo na Grécia  antiga, quando a pederastia era algo comum, e nem por isso a relação heterossexual não poderia rolar entre os homo afetivos. A efetividade homossexual era puramente amorosa e heterossexual era, por assim dizer, pragmática. Tal sistema seria completamente plausível no primeiro caso e os sobreviventes poderiam se perpetuar, algo totalmente irreal no segundo. Ao contrario do que se aponta, a preservação da espécie seria totalmente considerável na primeira ilha, e não necessariamente desastrosa.

Alguns cristãos insistentes poderiam responder: "Ei! Mas as pessoas tem livre-arbítrio de serem homossexuais (aqui considero a causa genética como falha), pessoas estéreis não tem de serem desse jeito, além de que estes últimos não podem se multiplicar e acelerar a desestruturação da civilização em geral, como a homossexualidade tem fazendo. Se adotarmos o "homossexualismo", logo muitos o serão. "

Afora as simples questões problemáticas que a tréplica tem ( por que raios, se legalizássemos a homossexualidade, todos ou a maioria das pessoas se tornaria homossexual? Gosto sexual não é defino pela legalidade ou não. E se o pressuposto estivesse certo, a legalização da heterossexualidade tornaria todos heterossexuais), ela também se desfragmenta após uma rápida analise crítica. A resposta da analogia usando a esterilidade não se limita apenas a esse exemplo. Podemos citar também a questão dos celibatários, uma posição livre da pessoa. Usando o texto "homossexualidade e lei: alguns argumentos comuns" de Luís Veríssimo, observamos essa refutação:

" Versão 1

*Premissa 1: Se X puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o pratique, então x é errado. 

*Premissa 2: X poria em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o praticasse.

*Conclusão: X é errado.

O problema deste argumento está na premissa 1. Há coisas que poriam em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente as praticasse, mas não são erradas - justamente porque são praticadas apenas por alguns. De resto, vejamos o que resultaria da aplicação do argumento ao celibato:

Versão 2

*Premissa 1: Se o celibato puser em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o pratique, então o celibato é errado.

*Premissa 2: O celibato poria em risco a preservação da espécie humana, caso toda a gente o praticasse.

*Conclusão: O celibato é errado.

Se todos fôssemos celibatários, a espécie humana acabaria por se extinguir; mas isso não significa que o celibato deve ser considerado errado ou proibido. Se todos fôssemos carpinteiros, se todos fôssemos biólogos, se todos fôssemos arquitectos... há muita coisas que se todos fizéssemos, teriam consequências muito perigosas para a sobrevivência da espécie, mas nem por isso devem ser proibidas. Isto porque a probabilidade de todos nos tornamos arquitectos, mesmo que o casamento e a adoção por parte de casais sejam permitidos, é tão baixa que não é relevante"

A conclusão tirada? A analogia falha completamente, pois serve contra a própria militância anti-homossexual. Por que proibir alguns casos, se todos são potencialmente perigosos a espécie?



3 comentários:

  1. Excelente refutação, Xiangqi. Vale ainda observar que a homossexualidade não necessariamente exclui o, por assim dizer, instinto reprodutivo, haja visto a considerável quantidade de casais homossexuais gays e lésbicos dispostos tanto a adotar como até mesmo a gerar seus próprios rebentos.

    ResponderExcluir
  2. Como você mencionou no exemplo da ilha, confirmamos que o homossexual é um desvio do estado natural, bem como a pessoa estéril.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade, no primeiro exemplo da ilha, quem afirma que o homossexual é um desvio do estado natural são os cristãos anti-gay. Em nenhum momento pronunciei essa posição.

      Todavia, o debate sobre a questão se a homossexualidade é anti-natural ou não é um caso a parte. Quem acha que não é usa o argumento de ser observável relacionamentos homossexuais entre outras espécies, como elefantes, leões, vermes e outras 1.500 espécies animais. Portanto, o ato homossexual seria algo banal no reino animal, i.e, natural. Alegar a homossexualidade então como um peccatum contra naturam seria uma fraude intelectual tremenda. O problema é que esse argumento é muito polêmico e obscuro, e ainda não se chegou a nenhum consenso sobre sua validade.

      Mas não vou entrar no mérito dessa questão. O que acontece é que o argumento sobre a naturalidade ou anti-naturalidade da homossexualidade (e da pessoa estéril também) é IRRELEVANTE para o tema debatido nesse post.

      Pois o meu post pode ser resumido na seguinte pergunta: "Independente de sua natureza ou anti-natureza, por que os cristãos anti-gay estão tão empenhados contra o casamento homossexual (sendo embasados pelo argumento da perpetuação da espécie), sendo que a esterilidade e a infertilidade causam os mesmos efeitos "nocivos" a mesma perpetuação, mas não vemos nenhum cristão anti-gay lutando contra o casamento de estereis e inférteis ?

      Espero que tenha entendido.

      Obrigado por comentar,

      atenciosamente Xiangqi Henrique.

      Excluir