Uma falha no argumento cosmológico Kalam de William Lane Craig (2009)

 Joffrey T. Allen

Atenção: Meu conhecimento da língua inglesa é irrisório. Traduzi este artigo apenas como puro hobbie e de forma amadora, e provavelmente deve gerar frutos catastróficos. Correções são bem vindas. 





O Argumento Cosmológico Kalam de William Lane Craig (doravante KCA, em inglês) se provou um argumento teológico natural vastamente influente na questão da existência de Deus [1]. É um argumento simples, e o inquérito sobre a sua validade  abriu novos caminhos de pesquisa na filosofia da religião e ciência. Neste ensaio, defenderei que uma premissa crucial na defesa do KCA, na qual um infinito real não pode existir, é falso, se Deus existir [2].

O KCA se consiste em três premissas básicas:

(1)- Tudo que começa a existir tem uma causa
(2)- O universo começou a existir
(3)- Por conseguinte, o universo tem uma causa.

(1) e (2) implicam (3), assim, se o KCA é um bom argumento, tudo depende de sua solidez, ou seja, se suas premissas são verdadeiras ou não. Craig oferece o seguinte argumento para demonstrar a segunda premissa:

(2.1) Uma regressão temporal infinita de eventos constituiria um infinito real.
(2.2) Não pode existir um infinito real.
(2.3) Portanto, não pode existir uma regressão temporal infinita de eventos.

A teologia judaico-cristã sustenta a existência Deus onisciente, ou seja, tem conhecimento de todas as coisas logicamente possíveis. O que filósofos tem geralmente em mente é que Deus  conhece as coisas como a idade do universo, que seu filho, Jesus Cristo, foi crucificado e ressuscitou três dias depois, e assim por diante. Ou seja, Deus possui um conhecimento completamente irreflexivel - total conhecimento de tudo que não seja o próprio Deus. O conhecimento reflexivo de Deus é igualmente não controverso. Não há nada de paradoxal, por exemplo, na afirmação de que Deus sabe que ele tem o poder de fazer qualquer coisa que lhe agrada (enquanto ele não implica em uma contradição lógica). Se ele é onisciente [3], Deus provavelmente sabe, uma vez por não implicar em qualquer inconsistência lógica, que a seguinte preposição é verdadeira:

(4) Craig diz que não pode existir um infinito real.

Agora considere o conhecimento de Deus sobre algo. Uma vez que não há qualquer contradição lógica de que Deus sabe que ele sabe (4) é verdadeira, segue-se da onisciência de Deus saber que ele sabe (4) é verdadeira. Sendo assim, Deus deve saber também que ele sabe que ele sabe, e assim por diante, ad infinitum, contanto que a onisciência de Deus implica em conhecimento reflexivo completo.

Em suma, existe um número infinito real de preposições na qual Deus sabe ser verdadeiro, ou seja, preposições sobre seu próprio conhecimento. Isso decorre da própria definição de Deus, mas entra em conflito com a premissa a (2.2) de sua defesa do KCA: "um infinito real não pode existir". Independentemente do KCA e da premissa (2.2) defende-la, parece perfeitamente razoável que um Deus onisciente deveria ter um completo conhecimento reflexivo, levando a um dilema: ou Deus não existe ( e o KCA perde completamente o seu proposito), ou um real infinito pode existir (então a conclusão de que um universo começou a existir repousa sobre uma falsa premissa, um infinito real não pode existir).

Uma solução aparentemente simples é limitar o domínio ou o intervalo de (2.2) para eventos que ocorrem dentro do universo físico. Isso excluiria qualquer objeto não físico, como preposições que são os objetos de conhecimento de Deus (incluindo seu conhecimento reflexivo). Dessa maneira, (2.2) pode ser reformulado por:

(2.2') Um real infinito consistido de objetos físicos não pode existir.

Mas se é aceitável limitar o alcance da premissa (2.2) para não criar uma conclusão indesejável para o teísta (Deus não existe) [4] é igualmente aceitável limitar o alcance de (1) para evitar uma conclusão indesejável para o ateu (Deus existe). Uma vez da questão aqui ser epistemológico, este movimento não  dará ao proponente do KCA algo aceitável de ele abraçar.

Mas há outra maneira de defender (2.2'): mostrar o que é verdadeiro além do que o KCA defende. Pensei em experiências como o Hotel de Hilbert [5] estabeleceram hipoteticamente argumentos independentes para (2.2), mas implicam que Deus não existe. Então, defensores do KCA precisam de independentes justificações na qual mostram o Hotel Hilbert, ou algum outro argumento, estabelece a premissa mais forte (2.2') como verdadeira e a favor do teísmo. Isso ainda tem que ser feito.

A última solução provavelmente é a mais promissora. Craig tem argumentos  que o conhecimento de Deus não é proposicional; ou seja, Deus não quer saber se quaisquer preposições são verdadeiras. Para ele, o conhecimento de Deus pode ser expressa:

Como uma intuição indivisível da realidade, que nós conhecedores finitos representamos em termos de preposição. Expressemos proposicionalmente o que Deus não conjuga proposicional. [6]

Interpretar a onisciência de Deus como não proposicional em termos de "uma intuição indivisível da realidade" (o que quer isso signifique) implica que não há um número infinito de proposições; pelo contrário, existem apenas finitas preposições, tal como os seres humanos tem capacidade de conscientizar Dessa maneira, teístas são liberados de usar o argumento do infinito real. Sobre essa visão, Deus não sabe  todas as preposições verdadeiras. Em vez disso, ele sabe todas as verdades, na qual são adquiridos através de "uma intuição indivisível da realidade". Craig ainda sugere que preposições não precisam desempenhar qualquer papel na definição de onisciência, citando a caracterização de Charles Taliaferro:

[Ele] propõe... que onisciência deve ser entendida em termos de potência máxima cognitiva,a saber, caso uma pessoa S é onisciente, é metafisicamente impossível que haja um ser com maior poder cognitivo do que S e esse poder ser exercido plenamente.

Essa abordagem ressoa muito bem com a ideia de Craig na qual termos modais em (2.2) devem ser entendidos em termos de necessidade metafísica, de uma forma mais forte de necessidade lógica - contanto que "necessidade" e "necessidade lógica" são inteligíveis [7].

Preposições podem ser muito bem "ficções úteis" [8]. Mas há um atrito entre (2.2) e onisciência ou não podemos aceitar a preposição. Vamos aceitar como verdade a proposta de Craig: "Deus sabe de toda a verdade". É ainda contraditório pensar supor que o (a) Deus sabe tudo que é logicamente possível para ele saber e (b) um infinito real não pode existir. Para supor que Deus sabe (4), onde (4) é tomada como uma verdade, ao invés de uma preposição. Se substituirmos "proposta" como "verdade", ele ainda segue criando um número infinto real de verdades. Além disso, é logicamente possível que Deus simultaneamente tem e mantem um número infinito de crenças divididas, assim como podemos pensar no conhecimento humano como incluindo verdades que podem ser individualizadas uns com os outros, no entanto, realizada de uma só vez.

Sendo assim, se nós aceitamos estas preposições ou verdades ao definir onisciência, se (2.2) é verdadeiro, Deus não pode existir. Se Deus sabe de todas as preposições verdadeiras e acreditar que não há falsos, então Deus deve saber um número infinito de preposições, pois há um infinidade de objetos de seu autoconhecimento. E uma vez que é logicamente possível para um Deus saber um número infinito real de verdades sobre si mesmo, se ele sabe de todas verdades, então ele faz um número infinito real de verdades sobre si mesmo. Então Craig deve limitar independentemente a gama universal de possibilidades de (2.2), ou então admitir que qualquer preposição defensora de (2.2) é falsa ou ainda admitir a inexistência de Deus [9].

Notas:


[1] William Lane Craig, The Kalam Cosmological Argument (London, UK: Macmillan & Co., 1979).

[2] I am greatly indebted to Nelson Pike for inspiring my work in the philosophy of religion, particularly on Craig's kalam cosmological argument.

[3] I am grateful to Robert Greg Cavin for suggesting this specific example. Other examples are equally suitable, such as the original one I used to derive the paradox: that God knows that he knows everything.

[4] The sort of change in range for the first premise that I have in mind would be something like the following:

(1') Whatever begins to exist that is a physical object within spacetime has a cause.

If (1') took the place of (1) in the KCA, then (2) would no longer follow from (1), since the universe is not a physical object within spacetime.


[5] For an explanation of Hilbert's Hotel, see William Lane Craig, Reasonable Faith (3rd ed.) (Wheaton, IL: Crossway Books, 2008), p. 118.

[6] William Lane Craig, "Theistic Critiques of Atheism" in The Cambridge Companion to Atheism, ed. Michael Martin (New York, NY: Cambridge University Press, 2007): 69-85. <http://www.reasonablefaith.org/site/News2?page=NewsArticle&id=6645>.

[7] W. V. O. Quine, "Reference and Modality" in From a Logical Point of View: Nine Logico-Philosophical Essays, ed. W. V. O. Quine (Cambridge, MA: Harvard University Press, 1953).

[8] Or propositions might even be useless fictions, for that matter. See W. V. O. Quine, "Propositional Objects" in Ontological Relativity and Other Essays, ed. W. V. O. Quine (Columbia, NY: Columbia University Press, 1969).

[9] Craig could also argue, perhaps, that God is "omniscient" in a way which would make logically possible the existence of a more knowledgeable being than God, i.e., a being that knows everything that it is logically possible to know.


Um comentário:

  1. axo que a palavra ''atemporal'' pode ajudar a entender o porq de ñ existir um infinito real.

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