Craig, Kalam e a mecânica quântica



Introdução 

De Aron Zavaro

Nas últimas três décadas, o filósofo cristão William Lane Craig tem apelado para o início do universo pra provar a existência de Deus ( Nota do tradutor: É importante avisar que o argumento cosmológico tradicional surgiu da tradição islâmica medieval, tendo Craig apenas o aperfeiçoado). O argumento cosmológico de Kalam, como é chamado, possui o seguinte formato:

P1) Tudo que começa a existir tem uma causa
P2) O universo começou a existir
C) portanto, o universo tem uma causa

O objetivo deste ensaio é evidenciar uma objeção comum a P1, conhecido como a "objeção da mecânica quântica", e, em seguida, examinar a típica refutação de Craig. Concluo que a objeção de Craig não só é irrelevante, como também leva a uma série de outras problemas: A) ele se equivocou no termo "começar a existir" B) torna P1 totalmente inverificável C) seu argumento se torna uma petição de princípio D) e leva Craig a adotar definições contraditórias do nada.

A objeção da mecânica quântica 

Craig afirma que P1 é um principio "constantemente confirmado em nossa experiência [1]. Todavia isso realmente é verdade? Uma crítica comum de P1 é que, no nível subatômico, as leis de causa e efeito não se seguem. Por exemplo, "partículas virtuais", como são chamadas, aleatoriamente começam a existir e então desaparecem subitamente da existência. A decadência aleatória de um núcleo radioativo, por exemplo, é outro fator comum citada na indeterminação quântica. Essa não determinação é considerada por muitos uma característica inata do mundo quântico, e por que o início do universo era compactado do tamanho de uma partícula, a criação do universo teria sido um evento quântico. Como diz Paul Davies,

A mecânica quântica enfraqueceu o princípio da causa e do efeito, fornecendo uma maneira sutil para solucionar o problema da origem do universo.... visto que através dos olhos de um físico quântico, o aparecimento espontâneo de um universo não seria surpresa, por que os objetos físicos , de maneira espontânea, aparecem o tempo todo - sem causas bem definidas - no micromundo quântico. O físico quântico não precisa apelar para um ato sobrenatural para trazer o universo à existência, da mesma maneira que um núcleo radioativo não precisa [2].  

Qual é a resposta de Craig ? 

William Lane Craig está bem ciente da oposição da "mecânica quântica" em relação a P1. Sua resposta típica é que os eventos quânticos, ainda não são exemplos de criação ex-nihilo. Craig acusa que as partículas virtuais não vem realmente do nada, mas sim do preexistente vácuo quântico. E quando essas partículas aparecem, Craig alega que não vem fora da existência, e sim apenas vindo de uma energia preexistente. Ele escreve:

Esse contra-argumento não fornece nenhuma analogia de fato do evento ex-nihilo. Este fenômeno quântico, mesmo sendo uma exceção ao princípio de que cada evento tem uma causa, não fornece uma analogia que algo está vindo à existência do nada. Embora os físicos falem isso como criação de pares de partículas e aniquilação das mesmas, tais termos são filosoficamente enganosos, por que tudo não passa de conversão de energia em matéria ou vice-versa [3].

A resposta de Craig é relevante ? 

Apesar de Craig estar absolutamente correto que partículas virtuais não são criadas ex-nihilo, ele perde completamente o ponto principal da oposição. Partículas virtuais e outros exemplos de indeterminação quântica são estão sendo apresentadas como exemplos da criação ex-nihilo. Em vez disso, está simplesmente apresentados exceções à P1 - existem coisas que vem a existir no qual não tem causas. Essas partículas não existiam, então vieram a existência, e estas não têm nenhuma explicação causal.  O fato de que eles surgiram de um vácuo preexistente não muda o fato de que começaram a existir sem uma causa.

Em 2012, o cosmólogo Lawrence Krauss publicou um livro intitulado " Um universo a partir do nada: por que há algo ao invés de nada", em que ele pretendia mostrar que a mecânica quântica pode explicar como a matéria, espaço e tempo podem surgir do nada. Críticos imediatamente denunciaram Krauss acusando-o de usar a palavra "nada" de forma enganosa. O filósofo da ciência David Albert, por exemplo, escreveu no The New York Times,

O vácuo quântico não é menos diferente que Girafas, frigoríficos ou sistemas solares. São modalidades de coisas elementares da física... nenhuma dessas criações (das partículas virtuais), caso você analisar corretamente, chegam perto de criações vindas do nada [4].

A crítica de Albert é essencialmente a mesma de Craig: eventos quânticos estão longe de serem criações  ex-nihilo. Na teoria quântica de campos, Albert explica, as partículas são vistas como disposições especificas dos campos quânticos. A maneira que esses campos estão dispostos pelo número determinado de partículas.  "Algumas das modalidades.... correspondem a existência de um número infinito de partículas e outras modalidades correspondem à ausência de partículas em alguns espaços. O arranjo do [5] campo que correspondem a ausência partículas são chamados de "vácuo de estado". Agora, na visão de Krauss, estes estados de vácuo deveriam ser considerados "nada". Mas nos olhos de Albert, estes estados de vácuo são sim "algo". A única diferença entre o nosso universo e um estado de vácuo são o arranjo desses campos. Reorganizar esses campos não vão sempre nos dar um "nada", a única maneira de fazer isso seria se livrar para sempre desses campos por completo. Assim Albert mostra que a mecânica quântica nunca mostrou que as coisas surgiram do "nada", e sim que surgiu de uma espécie diferente de algo.

Enquanto Albert está certo a respeito do que a teoria quântica nunca pressupõe a existência de "algo", e, portanto, não pode pode preencher a lacuna entre a existência e inexistência, isso não consegue captar o verdeiro objetivo de Krauss. O verdadeiro valor do livro dele é que seu principal objetivo desafia seriamente ao senso comum da origem da crença em P1, isso na perspectiva da mecânica quântica. Como explica Krauss, uma pessoa leiga diria com absoluta certeza que o espaço vazio sempre continuará vazio. Essa mesma pessoa alegaria que um estado vazio atemporal nunca produziria nada sem a ajuda de Deus. Mas, tal como assinala Krauss, tais intuições são falsas. Em uma dura crítica de David Albert, o filósofo da ciência Justin Fisher grava,

[Krauss] (corretamente) argumenta que... muitas pessoas ordinárias, achando que é impossível, sem a ajuda de uma intervenção milagrosa, que objetos físicos comuns venham espontaneamente vir a existência onde tais objetos não tiveram existido antes -  dizem " algo não pode sair do nada !". É dessas pessoas, e não os filósofos profissionais que sabem dos princípios básicos da mecânica quântica, que são o público alvo do livro de Krauss [6].  

Na verdade, os sites apologéticos cristãos fornecem um excelente exemplo de como leigos podem ser enganados por suas intuições. Em um deles, argumentam que seria impossível um uma sala com o "nada" em seu interior surgir qualquer coisa "física".

Digamos que você tem uma grande sala. Está completamente fechada, permanentemente: sem portas, janelas ou buracos em suas paredes. Dentro do quarto... não há nada. Absolutamente nada. Não existe nenhuma partícula sequer. Sem ar, sem poeira, sem luz. É uma sala selada que no seu interior contém o mais obscuro breu. Então, o que acontece?.... Espere 15 minutos e verifique o que aconteceu. Bem, que tal esperar a eternidade? Uma eternidade é apenas um monte de todos os segmentos de 15 minutos pressionados juntos... Então aqui vai a pergunta: se originalmente - zilhões de anos atrás - não havia absolutamente nada - não importa o quão pequeno fosse - não poderia surgir absolutamente nada. Ainda teríamos absolutamente nada [7]. 

Estes são os tipos de intuições que deram origem a idéia de que "tudo que começa a existir tem uma causa", e estas são precisamente as intuições que Krauss desmascara em seu livro.

O fato de que Krauss nunca forneceu um relato naturalista da criação ex nihilo é irrelevante para o fato que ele forneça uma crítica mordaz as intuições do senso comum que deram origem a P1. Ele pode não ter explicado por que há algo ao invés de nada, ou como o universo poderia vir do nada, mas ele mostrou claramente que nem tudo que começa a existir exige uma causa. De fato, mostrou que P1 é violado o tempo todo!

Assim, as críticas de Craig e Albert são fora de qualquer contexto sério. A mecânica quântica realmente proporcionou contra-exemplos para P1, e basta isso para colocar me cheque o argumento cosmológico Kalam. Até mesmo o filósofo cristão Bruce Reichenbach concorda que " deve-se reconhecer que, mostrando a indeterminação é uma característica real do mundo, o mundo quântico teria implicações negativas o suficiente para o princípio causal  geral que sustenta o argumento cosmológico dedutivo [8].

Teria Craig se equivocado na afirmativa " Começar a existir " ? 

Mas então por que Craig nega que os eventos quânticos não são uma exceção em P1? Talvez por causa da maneira falaciosa que Craig define o termo " Começar a existir ". Para ele, esse termo é definido especificamente em quatros clausulas independentes:

Uma entidade x começa a existir no tempo t, se e somente se:

1- x existe em t
2- Em t é primeira vez que existe x
3- Não há nenhum estado de coisas do mundo real, em que x existe eternamente.
4- x's existentes em t é um fato tenso* [9]

A cláusula 3 especificamente foi adicionada por Craig, para que Deus ficar imune a começar a existir no momento do Big Bang ( e, portanto, imune a exigir uma causa própria) e a cláusula 4 deixa claro que a definição de Craig depende de uma teoria controversa do tempo. Ao considerar o caso de partículas virtuais e outros fenômenos quânticos, vemos que eles cumprem esses requisitos muito facilmente. Quando uma partícula indeterminada aparece, ela existe no tempo t ( condição 1), é a primeira vez que essa partícula existe (condição 2) , a partícula nunca teve algum tipo de existência atemporal em algum reino atemporal (condição 3), e se nós aceitarmos a teoria de Craig do tempo, a partícula seria um fato tenso (condição 4).

Por definição do próprio Craig, se partículas virtuais de fato começam a existir, então ele deveria ser o primeiro a admitir que eles violam P1. Então, por que ele não acha isso? Parece que Craig está alterando sua definição de "começar a existir " quando está discutindo a mecânica quântica. Craig frequentemente aquivale "começar a existir" com "vir a existência ". Curiosamente, Craig parece entender o termo "vir a existência" de tal forma como apenas algo que vem a existir a partir do nada, Eis porque ele não considera que as partículas virtuais, que não veem literalmente do nada, são exemplos de coisas que vieram a existência sem uma causa. Assim, na opinião de Craig, as únicas coisas que realmente começam a existir são criadas ex-nihilo. Todo o resto é apenas convertido ou transformado em energia e matéria preexistente. Assim, Craig deveria afirmar P1 dessa maneira:

P1: Tudo o que começa a existir tem uma causa

para essa definição:

P1(modificado): tudo que vem à existência do nada tem uma causa

Dessa maneira, vemos que Craig  comete a falácia do equívoco. Ao mesmo tempo em seu argumento, ele usa a definição da cláusula 4 de "começa a existir"", em que certos fenômenos quânticos desmentem. Para evitar esse problema, Craig de maneira malandra muda as definições e adota um novo requisito que coisas só podem existir se vem à existência do nada.

A resposta de Craig torna P1 inverificável ? 

A versão reformulada de Craig de P1 também tem como consequência tornar P1 completamente inverificável. Se definirmos "começa a existir" como " entrando na existência do nada", então nunca realmente se testemunhou um único evento de algo que do nada começa a existir.  Em vez disso, assistimos apenas exemplos de conversão de energia e transformação da matéria, que não cai nas condições de P1 na visão de Craig. Mas como nós literalmente não temos a experiência de como as coisas começam a existir, obviamente, não podemos dizer que nossa experiência confirma a premissa que essas coisas exigem causas. Assim, não existe absolutamente nenhuma evidência empírica que essas coisas exigem causas. Como o filósofo Nicholas Everitt, com razão, diz: " Se isto é  o que  'início de existência' é, temos muita pouca experiência para dizer se todos esses fenômenos têm causas ou não [10].  

A esquiva de Craig torna o argumento circular ?

Mas importante ainda, a reformulação de Craig em P1 torna o seu raciocínio inteiro circular. Pergunta-se: se as coisas só vem à existência, se vêm do nada, então que tipos de coisas caem nesta categoria? Curiosamente, a única coisa que é mesmo elegível é o próprio universo. Tudo o que começa a existir dentro do universo necessariamente saíra de um espaço-tempo preexistente, portanto P1 não poderia possivelmente se aplicar a outra coisa senão o universo com um todo. Mas desde que "tudo que começa a existir" equivale a "o universo", P1 deve realmente ser expresso:

P1(modificado): o universo tem uma causa.

Mas isso apenas presume que a conclusão é verdadeira, tornando-se descaradamente um argumento circular.

A tremenda contradição de Craig em definir "nada"

Observe  que William Lane Craig também altera a definição de "nada" de acordo com suas necessidades. As vezes, ele vai dizer coisas como esta: " Ninguém no seu perfeito juízo realmente acredita que um tigre feroz de repente poderia vir a existência do nada, neste quarto agora?"[11]. Dados seus comentários anteriores sobre a definição do "nada", Craig dificilmente poderia se defender que isso seria uma criação ex-nihilo, dado que o tigre iria surgir em um espaço-tempo preexistente. Neste caso, Craig está disposto a ampliar sua definição do "nada", porque permite-lhe dizer que nossa experiência presta apoio a P1.

Mas se este tigre seria algo vindo do nada, então não é claro por que uma partícula em um vácuo não seria um exemplo de existência a partir do nada (afinal de contas, o vácuo não é diferente de uma sala de estar). Para evitar esse problema, Craig altera a sua definição de "nada", de modo que apenas a espontânea criação do absolutamente nada se encaixa nas condições. Mas se está é uma definição que ele quer aceitar, o fato de que tigres não aparece  aleatoriamente em nossas salas de estar é irrelevante se o universo poderia ter começado a existir sem uma causa.

Assim, qualquer definição de "nada" de Craig que alega, ocorre um problema. Se ele leva a definição abrangente, como o tigre na sala de estar, a mecânica quântica parece fornecer uma exceção para P1. Por outro lado, se ele leva a definição do puro nada, Craig perde a capacidade de apelar à experiência, a fim de confirmar P1.

Notas 

[1] William Lane Craig & James Sinclair, "The Kalam Cosmological Argument" in The Blackwell Companion to Natural Theology (eds. William Lane Craig & J.P Moreland, Malden, MA: Blackwell, 2009), p.187

[2] Paul Davies, The Mind of God: The Scientific Basis for a Rational World (New York, NY: Simon & Schuster), pp.61-62

[3] William Lane Craig, "The Existence of God and the Beginning of the Universe" (URL: http://www.leaderu.com/truth/3truth11.html 1991) spotted February 20, 2013.

[4] David Albert, "On the Origin of Everything 'A Universe From Nothing,' by Lawrence M. Krauss" The New York Times, March 23, 2012, BR20.

[5] Ibid.

[6] Justin Fisher, "A Philosopher Defends Krauss" (URL: http://leiterreports.typepad.com/blog/2012/05/a-philosopher-defends-krauss.html 2012) spotted February 20, 2013.

[7] Was There Ever Nothing? (URL: http://www.everystudent.com/journeys/nothing.html) spotted February 20, 2013.

[8] Bruce Reichenbach, "Cosmological Argument" (URL: http://plato.stanford.edu/entries/cosmological-argument/#5.1 2012) spotted February 20, 2013.

[9] Craig & Sinclair, p.184

[10] Nicholas Everitt, The Non-Existence of God (New York, NY: Routledge, 2004) p.307.

[11] William Lane Craig, Reasonable Faith: Christian Truth and Apologetics (3rd ed.)(Wheaton, IL: Crossway Books, 2008) p.113.

Fonte 

http://www.infidels.org/kiosk/article870.html

5 comentários:

  1. O artigo é muito bom, e esta tradução está sensivelmente melhor do que as anteriores, parabéns.

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    1. Muito obrigado Gilmar, e desculpe pela demora em responder.
      Também gostei do artigo: curto, fácil e apresenta um contra-argumento devastador. Sinceramente, apenas uma descoberta revolucionária na mecânica quântica iria tirar Craig dessa situação constrangedora.
      Apenas fiquei na dúvida do que seria um fato "tenso" ( No inglês tensed fact).Pode ser um termo no qual simplesmente desconheço, ou traduzir a expressão literalmente foi um erro grotesco.

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    2. Quando estiver em dúvida, dê uma olhada no free dictionary (http://www.thefreedictionary.com/). Recomendo ele porque muitas expressões que causam dúvidas são expressões idiomáticas (idioms) que são expressões que não fazem sentido quando tomadas literalmente, seu sentido só faz sentido entre aqueles que usam a língua e conhecem a expressão, e o free dictionary possui um excelente banco de expressões idomáticas do inglês que já me salvou algumas vezes.

      No caso de Tensed fact, o free dictionary diz que tensed pode ser usado para se referir a características limitadas no tempo. (http://www.thefreedictionary.com/tensed)

      Tensed fact, então, seria um fato ou uma verdade temporários. Um exemplo de fato temporário seria "hoje é 06/07/13", algo que é verdadeiro hoje, mas a partir de amanhã nunca mais será verdade.

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    3. Muito obrigado pela dica e pela tradução Bruno! Dei uma olhada no free dictionary e achei uma excelente ferramenta. Passarei a usar a partir de agora.

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  2. Eu já havia lido este artigo, mas li na Secular mesmo. Seja como for, é um excelente artigo. De uma olhada nestes 3 aqui, são ótimos também:

    http://www.infidels.org/library/modern/steven_conifer/mbd.html
    http://www.infidels.org/kiosk/article726.html
    http://www.infidels.org/kiosk/article856.html

    Alberto

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