O argumento moral para a existência de Deus






James R. Handerson 

O argumento moral para a existência de Deus pode assumir muitas formas. [1]. Neste artigo, em vez de criticar tantas variedades, eu vou refutar a versão de Peter Kreeft e Ronald Tacelli. Eles esquematizam o argumento da seguinte forma:

1- A obrigação moral é um fato. Na realidade, somos obrigados a fazer o bem e evitar o mal.
2- Ou a visão ateísta da realidade é a correta ou é a visão religiosa.
3- Mas o ateísmo é incompatível com a existência da obrigação moral.
4- Dessa maneira, a visão religiosa da realidade é a crença correta.

Kreeft e Tacelli admitem que o termo "religiosa" na premissa (2) e na conclusão (4) devem ser entendidos de forma muito genérica. [3] Por exemplo, visão "religiosa" seria compatível, entre outros exemplos, com o Platonismo.[4]. Dessa maneira, é mais correto entender que ambos formularam um argumento contra o naturalismo, não propriamente um argumento a favor de Deus. De qualquer forma, não me preocuparei com essa questão porque o argumento falha do mesmo jeito, como veremos.

A interpretação de "ateu" e religiosa", como sinônimos, respectivamente, de naturalista e sobrenaturalista, é válida. Resta verificar se o argumento em si é válido. A premissa 1, que a moral segue um dever objetivo, é argumentada sem suporte. Os autores aceitam que se a conclusão não segue essa premissa, o argumento é falso; [5] no entanto estou disposto a acreditar na veracidade dessa premissa para o meu argumento ( na verdade, creio que seja verdade). A premissa 2, como podemos observar, é claramente verdade. Toda a questão gira, então, na veracidade da premissa 3.

Kreeft e Tacelli oferecem o seguinte argumento para defender a premissa 3:

Agora, dado o fato da obrigação moral, uma pergunta surge naturalmente. O ateísmo é compatível com esse fato? A resposta é não. Ateus nunca se cansam de nos dizer que somos produtos aleatório da matéria, no qual cria sem propósito e é neutra em relação a todo o esforço humano. Vamos considerar suas palavras e perguntar: tendo em conta esse quadro, como a moral bem definida da realidade poderia ser estável diante dessa situação? Obrigação moral dificilmente poderia surgir no movimento cego e aleatório da  matéria pura.[6] 

Na verdade, o ateísmo não se restringe necessariamente a visão de que tudo é físico, algo que os autores admitem erroneamente. Além disso, é uma questão em aberto se a senciência pode existir em algo além da matéria. Como Kreeft e Tacelli estão argumentando com base na moralidade humana, e como os humanos são seres físicos, vou por de lado essa preocupação e proceder que a matéria é proeminente na discussão da moralidade objetiva. No final, a questão que Kreeft e Tacelli é a favor que nenhum fisicalista/naturalista pode ter uma moralidade objetiva.

Não tem sentido falar sobre moralidade se não houver (1) seres que são capazes de sofrimento e (2) agentes ( seres que podem, pelo menos em algum grau, determinar suas ações e que tem empatia pelo sofrimento dos outros); estas categorias não são idênticas, apesar de haver relações entre as duas, supondo que agentes podem sofrer. Kreeft e Tacelli aceitam essa condição: "É difícil conceber a moral objetiva 'flutuando' por contra própria, independente da idealização de qualquer pessoa."[7] Na verdade, é  difícil conceber que qualquer tipo de moralidade existe além das pessoas, considerando-se pessoas como agentes ( ou seja, tendo em conta que esse agentes são capazes de sofrer e que entendem o sofrimento dos outros ).

Kreeft e Tacelli argumentam que a obrigação moral não pode ser enraizada no movimento cego e sem propósito da matéria, e eles podem estar corretos ao afirmar isso. De qualquer forma, eu não vou contestar tal argumento. Existe, no entanto, uma questão muito interessante de se abordar nesse ponto da discussão. Uma vez quando que agentes ( e possivelmente outros seres dentro do âmbito moral) são uma condição necessária para a moralidade objetiva, não é a apenas o movimento sem proposito da matéria que entra em cena. Para haver uma discussão inteligível da moralidade, devem existir seres sencientes. Isso significa que a questão relevante não é o movimento cego e aleatório; os agentes tem planos, objetivos, esperanças e medos. Kreeft e Tacelli tem construído o argumento de forma equivocada, uma vez que ninguém ( que pelo menos eu estou ciente) acredita que a moralidade se baseia apenas no movimento cego da matéria; no entanto, pode-se argumentar que a moralidade é baseada na matéria e mais o "ingrediente" da existência de seres sencientes capazes de sofrer e amadurecer, e/ou compreender o sofrimento e amadurecimento de si e dos outros.

Se essa afirmação é certa, então Tacelli e Kreeft parecem propor algo mais ou menos análogo à " a água depende do hidrogênio". Embora seja verdade que o hidrogênio seja necessário para a existência da água, não é suficiente; oxigênio também é necessário. De forma similar, matéria e movimento é necessário para a moral (a moralidade humana, pelo menos), mas não é suficiente- senciência também é necessário. Já que se pode alegar que o oxigênio é formado em estrelas de hidrogênio, então a água se baseia em hidrogênio afinal (e portanto, pode-se argumentar que o fisicalista pode dizer que a senciência se baseia no movimento da matéria, por que seres sencientes são criados no movimento da matéria). [...] Deduzo, portanto, que apesar da matéria e movimento dessa sejam necessárias para a moralidade, eles não podem ser a única base da moral. Assumindo isso, eu estou de acordo com Kreeft e Tacelli, mas é questionável o porquê que um fisicalista afirmaria isso em primeiro lugar. Ninguém em sã consciência diria isso

O que falta fazer é mostrar que a moralidade objetiva pode se basear na existência de seres sencientes. Os autores teístas argumentam que isso não é possível, pois a moralidade absoluta não pode surgir como um desejo de evitar dor ou fazer o bem:

Suponha que a moralidade absoluta do ser humano não é nada mais do que o desejo desse. Nesse caso, não temos nenhum padrão moral, no qual os padrões dos desejos humanos podem ser julgados. Cada desejo humano vem da mesma fonte: da matéria sem propósito e indiferente da condição humana. E como esses desejos se tornariam obrigação, uma obrigação moralmente satisfatória? De acordo com essa condição, se digo que não existe obrigação de ajudar os necessitados, eu estaria cumprindo uma condição de meu desejo, que é não ajudar outras pessoas. Isso acarreta que nem eu e nem ninguém é realmente obrigado em ajudar os necessitados - que, na verdade, ninguém tem uma obrigação moral em nada.[8]

Essa objeção pode ser melhor explicitada na pergunta " Por que os seres sencientes tem direitos ? " Como o fisicalista poderia responder isso? Primeiro, é interessante deixar claro que os desejos não surgem do mero movimento sem propósito, sem piedade; eles vem da matéria sensível. Ou seja, a matéria viva, como pessoas. Esse tipo de matéria é bem diferente do que a inerte, tal como pedras, por exemplo. Se houver matéria sem propósito, então não existe moralidade. Em seguida, notamos que o sofrimento é objetivamente mal. Isso é afirmar que nada de bom pode vir do sofrimento e que nenhum sofrimento é bom para nós, isto é, que o direito dos seres sencientes de não sofrer é absoluto. E para algum sofrimento ser bom, seria necessário existir algo bom para compensar os prejuízos do sofrimento. O matemático e filósofo Leibniz, por exemplo, argumenta que esse é o melhor dos mundos possíveis, e que se o mundo fosse melhorado em algum aspecto, seria piorado em outro, e no final o resultado seria pior do que o status quo. Assim, o mal é necessário para gerar o bom. O ponto importante de se ressaltar é que o sofrimento deve ser analisado em consideração pelo todo ( Schleiermacher, Hick, Swinburne entre outros, também argumentam em uma linha parecida).

É importante frisar que Kreeft e Tacelli também acham o sofrimento seja algo ruim. Para eles sofrimento é: "Toda a coerção que pode causar prejuízos físicos e morais. A causa do sofrimento seria o pecado. "[9] Sem o pecado, de acordo com Kreeft, a terra seria um "paraíso,"[10] onde provavelmente não haveria nenhum sofrimento. Kreeft e Tacelli diferem de Leibniz por que não acham que este seja o melhor dos mundos possíveis, [11] e sim o maís revelador da verdadeira natureza criadora de Deus. Ele não apenas criou o melhor dos mundos possíveis, Ele construiu um mundo perfeito.[12] Nesse mundo perfeito, não existe qualquer sofrimento para seus habitantes, porque o mundo foi criado sem pecado [13] e, portanto, sem sofrimento. Se chega a conclusão que o sofrimento seria uma coisa ruim ( caso contrário, o mundo não seria perfeito com sua ausência), mas ruim para quem? Não para Deus. Ele, como não é feito de matéria, não pode sofrer qualquer tipo de mal físico. Mesmo que Deus tenha uma dor psíquica quando suas criaturas sofrem, de longe ele não é a principal vítima do sofrimento. Isso seria como afirmar que o assassinato é errado porque os amigos perderiam um companheiro. O sofrimento, de maneira obvia, não pode ser relevante para rochas ou árvores porque não são sencientes. O sofrimento é ruim para as criaturas sencientes, porque são criaturas sencientes materiais.

Em qualquer caso, o sofrimento é ruim em si mesmo. Kreeft e Tacelli admitem isso explicitamente, e Leibniz deve acreditar quem é um mal, senão não haveria motivo de equilibrar sua existência com algo bom. Então, por que os seres sencientes tem direitos? Eles tem direitos porque eles podem sofrer. Desde que é explicito que o sofrimento é um mal, se acarreta que a moralidade é objetiva. " Os deveres surgem do verdadeiro aspecto mal da realidade. [14] Assim, o argumento aqui não é que a moralidade é apenas baseado no desejo de evitar a dor ( ou qualquer outro tipo de desejo), e sim sobre fatos objetivos de agentes sencientes e a natureza do sofrimento.

Nada disso, de forma clara, vai provar que Deus não existe. A questão aqui é que a moralidade objetiva ( caso exista de fato) não implica na existência de Deus. Uma vez que o mal do sofrimento seja algo inerente em seres sencientes e que a moralidade pode ser um reflexo dessa natureza, Deus não é necessário ( mais uma vez, embora Ele possa existir de alguma forma). A afirmação de que a moralidade objetiva não pode existir na cosmovisão naturalista é simplesmente falsa, e o argumento de Kreeft e Tacelli falha.

Leia Também: Uma ética ateísta - o Auto-Interesse e Uma ética ateísta - A felicidade

Fontes:

[1] Byrne, P. Moral Arguments for the Existence of God (2013). http://plato.stanford.edu/entries/moral-arguments-god/, (accessed 28 March 2013). 

[2] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 72.

[3] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 73. [4] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 73.

[5] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 73.

[6] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 72.

[7] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 73.

[8] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 72-73. 

[9] Kreeft, P. (1988). Fundamentals of the Faith: Essays in Christian Apologetics. San Francisco, CA: Ignatius Press, 55. 

[10] Kreeft, P. (1988). Fundamentals of the Faith: Essays in Christian Apologetics. San Francisco, CA: Ignatius Press, 55. 

[11] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 320. 

[12] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 320. 

[13] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 146. 

[14] Kreeft, P. and R. Tacelli. (1994). Handbook of Christian Apologetics: Hundreds of Answers to Crucial Questions. Madison, WI: InterVarsity Press, 72.



Fonte: The moral argument for God's existence

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