Quem na terra iria acreditar em uma religião baseada em um homem crucificado? Parte 1-B




RICHARD CARRIER 

Quando começamos a abordar o problema de maneira correta, vemos que as considerações de Holding não são relevantes. Em primeiro lugar, os primeiros cristãos estavam em uma classe social mais baixa, diferentes daqueles que achavam qualquer crucificação repugnante, e que, portanto, não tinham razões credíveis para compartilharem a opinião da elite. Em segundo lugar, alguns judeus tinham a expectativa que o Messias tinha que ser humilhado necessariamente, como parte do plano de Deus para proteger seu triunfo. Logo, um Messias crucificado e humilhado seria justamente o que eles estavam procurando, e não passaria uma impressão de desgosto.

Recomendo a primeira parte do artigo: Quem na terra iria acreditar em um homem crucificado parte 1-A

O primeiro ponto é comprovado facilmente quando lemos alguns ensinamentos em Paulo e em Atos, comparando-os com os ensinamentos da comunidade Essênia em Qumran. Tal como a comunidade de Qumran, os primeiros cristãos parecem ter vindo de uma pobre e descontente classe média, nos quais tinham se revoltado com as injustiças da sua sociedade e governo, em especial a injustiça social e econômica, [7] como também execuções de homens justos podem ter alimentado esse ódio. O destino de João Batista é um caso claro: executado pelo estado, no entanto, foi ainda considerado um ícone para muitos Judeus.[8] Se João batista poderia ter sido reverenciado após sua execução, Jesus igualmente poderia ter passado pelo mesmo processo. Essa devoção por João não seria menos provável se ele tivesse sido crucificado - pelo contrário, a indignação com este insulto à sua honra tornaria a reverência ainda mais fervorosa por causa do seus sofrimento injusto. E desde que alguém acreditou que Jesus tinha sido um homem justo e foi crucificado injustamente, sua crucificação não teria sido um empecilho. Na verdade, tornaria sua reputação ainda mais heroica que qualquer outro tipo morte.

Essa afirmação era especialmente verdadeira entre os judeus e seus simpatizantes, que já tinham uma tradição de reverenciar mártires humilhados,[9] e sem contar que os pobres, desiludidos e marginzaliazados, nos quais tinham tinham se simpatizavam pelos homens bons eram humilhados e assassinatos pela elite corrupta que tanto odiavam. Portanto, aqueles que desprezavam os cristãos por adorarem um Deus crucificado, era de uma classe rica e poderosa, sendo judeu ou gentio. Em contrapartida, não temos nenhum registro de ninguém de fora dessa classe desprezando esse culto. [10] E quando estudamos o sucesso inicial do cristianismo, em seu primeiro século, era somente bem sucedido entre os pobres, os desiludidos, os menos favorecidos e alguns judeus e seus simpatizantes.
( como Lucas 7:2-6 indica). Que o cristianismo ganhou sucesso principalmente nesses grupos é evidente em Atos, onde a religião de cristo é descrita obtendo mais êxito principalmente nas comunidade judaicas e sinagogas e em lugares frequentados por escravos e mulheres. Cidadãos romanos, ou qualquer pessoa rica e poderosa ( que não eram Judeus ou simpatizantes ) eram raros entre os convertidos. Em outras palavras, o cristianismo foi mais bem sucedido em seus primórdios por pessoas que teriam empatia com a história de Jesus e poderiam admirar sua coragem diante da injusta morte. [11]

Assim, parece que Holding não tem nenhum argumento defensável nessa questão. Sim, alguém provavelmente acharia a idéia de um homem crucificado repugnante e para reverencia-lo precisaria de uma prova muito poderosa para se converter - exatamente como seu argumento defende. Mas não há provas que qualquer pessoa convertida, pelo menos nos cem anos posteriores da morte de Cristo, precisou de tais provas para se tornar cristão. Então o argumento acaba por ser irrelevante na real história do cristianismo primitivo. Em vez disso, salvo uma única exceção que examinaremos nos capítulos posteriores ( a traduzir), todo que se converterem para cristo nessa época não pertenciam a nenhum grupo que desprezaria a idéia de um homem crucificado. Em vez disso, eles estavam inseridos em um grupo pré-disposto a acreditar nessa doutrina. E para eles, um herói crucificado se tornaria ainda mais digno de veneração caso fosse morto pela elite desprezada.

Em uma última análise, um homem crucificado condenado ressuscitar permanece como um testemunho para a impotência dos líderes corruptos, e poderia ser a única coisa que os oprimidos queriam acreditar: que a elite malvada não poderia vencer custe o que tentassem. Obviamente, que esse triunfo ocorresse de forma sobrenatural seria mais desejável para os oprimidos. Contudo, como observamos em relatos históricos, nunca houve qualquer outra pessoa que poderia ocupar de fato o cargo de Jesus. Então, para os Judeus e seus simpatizantes ( no quais os únicos heróis viáveis eram mártires ) que eram impotentes diante de qualquer corrupção e injustiça da elite, a falta de um verdadeiro herói (sobrenatural) poderia criar uma espécie de supervalorização na aparição de qualquer profeta proeminente, isso sem precisar de qualquer prova conclusiva. Isso era o que os primeiros cristãos queriam, e nesse contexto, a história de cristo era certeza de sucesso.

Isso é confirmado pelo fato que o evangelho não transmitir realmente a idéia de um Deus crucificado humilhado. Nenhum convertido estava adorando um Deus derrotado no qual caiu em desgraça. Muito pelo contrário. desde de o inicio o evangelho prega um Deus crucificado mergulhado em glórias. Muitos conversos em potencial poderiam achar essa doutrina atraente para se seguir. Cristo era um Deus vitorioso, e sua crucificação foi uma derrota temporária. O verdadeiro Deus adorado, portanto, não foi derrotado em todos que nele acreditaram, e sim subiu aos céus e se assentou em seu trono celestial, e seu poder foi atestado na terra, assim como o seu carisma e os seus milagres.  Nem todo mundo acreditou nisso, claro. Mas muitos teriam. E muitos de fato acreditaram. O Cristo crucificado era um grande herói, que em breve salvaria todos os justos daquele mundo terrível, e os corruptos desprezados poderiam enfim seres tratados e punidos da maneira correta. Que esse herói tinha que morrer nas mãos da elite suja a fim de ganhar o poder supremo não era incomum: muitos deuses seguiram o mesmo caminho, desde de Inanna para os sumérios a Osíris para os antigos egípcios.

A concepção de um Deus sofredor, executado, era justamente o que judeus e simpatizantes esperavam: um messias humilhado. A escritura judaica declara que " O redentor de Israel " iria ser odiado pelos homens e as nações poderosas iriam contra a sua palavra. No entanto, ele iria triunfar; [13] mesmo que certas inimigos fossem "enterra-lo como um ímpio", independente se ele fosse necessariamente inocente. A idéia que um escolhido de Deus deveria sofrer humilhação total e execução nas mãos dos ímpios é um tema importante em Isaías. [15] Mesmo Davi, um protótipo de como um messias deveria ser, canta em Salmos 22: " Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste ?" e " Eu sou um verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado pelo povo" e ainda " Todos os que me veem zombam de mim ". Esta canção configurar um modelo judaico de um salvador, tendo em base Davi.

O texto pré-cristão relata que o sábio Salomão disse " Os ímpios o condenarão a uma morte vergonhosa o mais santos dos homens, por que eles são cegos pela sua iniquidade e não sabem os propósitos de Deus [17]. Isto foi uma afirmação que se aplicava a figura futura do messias, que seria, por definição, um homem íntegro e justo. E temos provas que alguns entendiam que o redentor da humanidade seria atacado de maneira horrível, como vemos nessa passagem:

E depois de sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será como uma inundação; e até o fim haverá guerras; estão determinadas as assolações (Daniel 9:26)

Esta profecia judaica era amplamente conhecida no mundo judaico e romano e era interpretado de muitas maneiras diferentes: Pelos romanos era um preságio da coroação de Vespasiano como imperador e pelos judeus, como um preságio de uma militar sobre roma, ou mesmo que a profecia diz claramente que a aguardada vinda do messias será acompanhada com ele sendo morto (apesar de sua inocência) e que os judeus serão derrotados (isso mais tarde é explicitado em Apocalipse) [18], Então temos a lição de Salomão, combinada com Isaías 52-23 ( que explicitamente descreve um um servo de Deus humilhado que é exaltado posteriormente ) e a maneira que Davi descreve a si mesmo ( por exemplo, humilhado e morto em Salmos 22, que se encontrava na terra dos mortos em Salmos 23, para enfim ser exaltado em glórias em Salmos 24). Mas acima de tudo temos Daniel 9, que diz que o messias será morto injustamente.

Assim, existe uma falha no pensamento de Holding. Sim, um homem que "do nada" foi crucificado e declarou ser Deus não ganharia muitos adeptos inicialmente. Mas isso não veio do nada. Em vez disso, um grande números de pessoas tinham interpretado as escrituras judaicas e esperavam que alguém iria sofrer uma execução das mais humilhantes nas mãos da elite perversa, apesar de sua completa inocência, e que essa pessoa seria o escolhido de Deus, um filho de Deus, e ainda por cima receberia a honra divina de ressuscitar, para então retornar para trazer a vingança entre os ímpios e salvaria todos os fiéis. Essas condições, sem sombra de dúvidas, contribuía significativamente para que os primeiros cristãos passassem a acreditar na alegação surpreendente que Jesus era o filho de Deus. As escrituras "previram" que ao mesmo tempo, que uma pessoa seria humilhada e executada, e que tal figura seria o Messias. Jesus era inocente e foi humilhado e executado. Isso fazia ele um bom candidatado. O argumento de Holding exige que a prova para seguir Jesus deveriam ser muito fortes, todavia, Jesus sendo crucificado não exigiria grandes provas para convencer potenciais seguidores que ele poderia ser nada mais do que um bom candidato para o título de Cristo.

Isto é confirmado pelo fato que as manifestações das escrituras foram um dos principais modos de sucesso adotados pelo cristianismo ( como mostraremos no capítulo 13, a traduzir). Mesmo que os cristãos desenvolveram novas interpretações, o fato de eles encontrarem "provas" nestes versículos carregava um poder de persuasão enorme. O ponto relevante aqui é que a preparação profética de um messias crucificado não seria um um ato de vergonha para ser seguido, e sim um ato de seguir as escrituras fielmente, sendo Judeus ou simpatizantes [19]. Em todo mundo as pessoas procuravam profecias para saberem como agirem, a ponto de procurar previsões de eventos atuais em "escrituras sagradas". O estado romano, por exemplo, consultava os Livros Sibilinos.[20] Assim, para converter um gentio bastava mostrar para eles textos sagrados relevantes e explicar a história de Jesus para confirma-los. O fato de que uma pessoa humilhada, crucificado que tornou-se Deus foi "previsto" por alguns textos antigos seria o suficiente para se tornar um poderoso argumento a favor da crença cristã. Não é por acaso que os cristãos se basearam nesse argumento por muito tempo.

A conclusão que se segue é que o argumento de Holding só funciona em certos grupos específicos, nos quais rejeitariam o cristianismo. Ele não toca no ponto que certos grupos realmente aceitariam o cristianismo, e que tais grupos não teriam encontrado nada de ruim em aceitar um cristo crucificado, e que alguns ainda achariam isso atraente. Neste grupo se encontrava os injustiçados da sociedade, além de Judeus e simpatizantes.

Fonte: Quem na terra iria acreditar em uma religião baseada em um homem crucificado ? (em inglês)

Notas em inglês no site Infidels.

Nenhum comentário:

Postar um comentário