É moralmente aceitável acreditar em Javé ?



Olhe para mim e diga que sou bonzinho... AGORA !!


Existem coisas que me deixam abismado, e defender que Javé não passa de um deus bonzinho é uma delas. Cerca de duas bilhões de pessoas se denominam cristãs no planeta e quando se referem ao Deus todo poderoso da Bíblia todos  vão se lembrar de Jesus e suas parábolas inspiradoras, seu sacrifício pela humanidade, se esquecendo que Ele não passa de uma figura eufemizada do grotesco Javé do antigo testamento. Quando encontram as inúmeras passagens ( link )  que denunciam o surto psicótico de Deus, vão simplesmente ignorar ou inventar alguma desculpa mirabolante para defender o indefensável. A verdadeira natureza de Javé se esconde em uma cortina de mentiras e invenções teológicas sem sentido os quais apenas convencem os mais ingênuos.

Segue aqui uma lista dos principais argumentos que já encontrei para defender a moralidade de Javé e suas respectivas refutações


Não tratarei aqui se a existência do inferno é justo ou não. Isso ficará para um post no futuro.

VOCÊ NÃO ESTÁ INTERPRETANDO A BÍBLIA CORRETAMENTE 

Qualquer pessoa com o mínimo conhecimento bíblico sabe o quão antigo o livro sagrado dos cristãos  é e das inúmeras traduções paras centenas de línguas que já foram publicadas. Os textos originais são escassos e apenas alguns especialistas em línguas primitivas, como hebraico antigo e grego arcaico, tem o privilégio de interpreta-las. Basta ler o livro " O que Jesus disse o que Jesus não disse " para compreender como a hermenêutica cristã é um campo difícil graças as várias traduções equivocadas. Não é nada estranho admitir que as traduções contemporâneas as vezes se distanciam muito do sentido original.

A partir desse fato surge a primeira teodicéia para a defesa de Javé.
Analisar superficialmente a Bíblia não a desmente. Ateus anti-cristãos apenas pegam trechos isolados e interpretam da pior maneira possível sem sequer buscar o sentido original. Não levam em conta o período histórico e a definição genuína. Assim fica fácil transformar Javé em um ser imoral. 
Essa crítica tem certo fundamento. Muitos ateus cometem o sofisma de não tentarem compreender a hermenêutica bíblica, isto é, buscar o sentido original do texto. Por exemplo, alguns apologetas cristãos alegam que a escravidão citada  em Deuteronômio 15:12-15; Efésios 6:9; Colossenses 4:1 era muito diferente da escravidão da era moderna baseada no cor da pele e executada com muita violência. A escravidão bíblica seria na verdade uma espécie de servidão espontânea e bem menos cruel. 

Outra versão desse argumento seria apelar para uma posição anti-literalista. Deus mandou um dilúvio para matar toda a humanidade menos uma família fiel a Javé ? Tudo não passa de uma metáfora para explicar como a falta de crença em Deus pode destruir o ser humano, etc etc.

A escravidão e o dilúvio são apenas alguns exemplos e podemos multiplicar muitas vezes outros pontos que precisariam de uma análise mais minuciosa para dar um veredicto final  sobre a moralidade bíblica. A questão é: Se provássemos que todos os trechos imorais da Bíblia pudessem ser explicados por seu contexto histórico, metafórico e descobrir que aquela palavra "matar" em Deuteronômio significa na verdade em grego antigo " amar o outro como se não houvesse amanhã ", Javé estaria isento de culpa ? A resposta é não. 

Vamos imaginar que a Declaração Mundial dos Direitos Humanos tenha sido formulada somente por falantes anglófonos e escrita primeiramente só em inglês.  A partir dai representantes de outras nações percebem o potencial pacifista da declaração e começam as traduções para os mais diversos idiomas. Tudo está ocorrendo da maneira esperada quando começa a surgir noticias de erros de traduções. Em mandarim  o artigo III " Toda a pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal " acabou ficando " Toda a pessoa tem direito a sofrer, à prisão e a insegurança pessoal ". Em Francês o artigo IX " Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado "  teve como tradução final " Uma grande maioria será arbitrariamente presa, detida ou exilada ". Não importa se o contexto histórico da China e da França, por exemplo, sejam de uma sociedade primitiva recheada de guerras e morais antiquadas ( assim como na antiguidade era ). Seria moralmente correto deixar a tradução circulando ou recolhe-las e corrigir o erro ? Enquanto circular, a declaração poderia ser mais uma desculpa para defender prisões injustas e a tortura, ou ainda incentivar uma nova onda de violência, principalmente se fosse um texto de grande referência. Sim, existiram pessoas que poderiam buscar o texto original e tentariam esclarecer o restante da população , todavia isso pressupõe que todos devem entender a língua inglesa e suspeitar que a tradução tem algum erro, o que nem sempre é óbvio, ou ainda estimar que os chineses e franceses que sabem inglês teriam a competência de informar o erro para todos. Talvez na era da internet isso tenha se tornado relativamente fácil, mas quando a maioria da população era analfabeta e os meios de comunicação eram primitivos e demorados, e a capacidade e leitura ser privilégio de alguns, isso seria realmente um empecilho. Até um esclarecimento total, muito estrago poderia ter ocorrido por causa de uma compressão errada dos "direitos humanos" mal traduzidos. Diante de tantos fatores o mais sensato a se fazer era recolher o máximo possível qualquer declaração mal feita. 

Talvez isso seja uma ação hercúlea, contudo não podemos nos esquecer que quando se trata da Bíblia estamos diante de um livro aparentemente escrito por uma divindade toda poderosa ou inspirada pelo mesmo. Javé poderia a qualquer momento corrigir automaticamente qualquer Bíblia ou simplesmente dar o conhecimento sobre crítica bíblica avançada para qualquer pessoa ou para grande parte dela. De maneira irresponsável Ele não fez qualquer coisa a respeito, deixando o verdadeiro conhecimento da hermenêutica bíblica na mão de poucos beneficiados que poderiam manipular as interpretações a bel prazer. Javé deixou ao mesmo tempo para a humanidade falsa informação e margem para críticas tendenciosas, o qual poderiam justificar a violência manipulando versículos bíblicos. Não somente a violência, mas como todos os equívocos negativos que as más traduções acarretam. E ainda por cima, criar dúvidas sobre a autoridade divina dos textos, abrindo espaço para a descrença em Deus. Uma total anti-propaganda. 

Apoiar que certos trechos bíblicos que assaltam a violência são uma metáfora tão pouco é uma desculpa convincente. Sendo onisciente Javé deveria saber que certos seres humanos poderiam interpretar aqueles escritos literalmente, ainda mais quando a primeira vista a Bíblia se autopromove como um fato histórico. Defender que é compreensível  Javé der passado informações metafóricas em livro que seria o guia espiritual e ético da humanidade é defender no mínimo a irresponsabilidade ética de Deus. Ou você acharia eticamente aceitável o comitê organizador da hipotética Declaração de Direitos Humanos ficar de braços cruzados enquanto o manifesto era interpretado erroneamente na China e na França, gerando uma onda de violência e/ou desinformação ?  

JAVÉ NÃO TEM CULPA PORQUE DOTOU OS SERES HUMANOS DE LIVRE-ARBÍTRIO 

Vamos desconsiderar a validade da hermenêutica bíblica. O livre-arbítrio é sem dúvidas é a defesa mor de qualquer cristão. A culpa dos males da humanidade seriam puramente fruto da escolha humana e Javé não tem qualquer participação disso.

É analisando esses casos que percebemos como um cristão não tem noção do próprio Deus que acredita. Javé está longe de estar no mesmo patamar dos Deus dos filósofos, uma força transcendental inalcançável,  onipotente, onibenevoleante  e onisciente, em que os alicerces do livre-arbítrio foram construídos. Javé é um Deus mesquinho, egoísta e intervencionista e em nada se assemelha com seu "irmão" filosófico.

Javé mata e ameaça incontáveis pessoas ao longo do AT, como por exemplo:

  • E disse o Senhor: Destruirei o homem que criei de sobre a face da terra, desde o homem até ao animal, até ao réptil, e até à ave dos céus; porque me arrependo de os haver feito.
    Gênesis 6:7
  • Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao Senhor.
    Êxodo 30:20
  • Porque Peca, filho de Remalias, matou em Judá, num só dia, cento e vinte mil, todos homens valentes; porquanto deixaram ao Senhor Deus de seus pais.
    2 Crônicas 28:6
Multiplicar exemplos não é necessário. Qualquer leitura atenta da Bíblia, principalmente a do antigo testamento, demonstra o quão esse livro é eticamente inaceitável, seja de origem divina ou não. Quando se deparamos com esses versículos percebemos que um cristão não pode simplesmente usar o livro arbítrio para defender a existência de atos ruins na Bíblia. A questão toda se desmembra em tentar justificar as intervenções de Javé no Antigo Testamento. Nem mesmo tentar desviar o foco para o Diabo adianta, uma vez que não é ele o autor de várias atrocidades na bíblia e sim o próprio Javé.

JUSTIFICANDO OS ATOS DE JAVÉ


E se Javé queria apenas proteger o povo escolhido e/ou as boas pessoas ? Por exemplo, na travessia do mar vermelho Ele fechou o canal d'água para interromper o ataque egípcio. No dilúvio, afogou as más pessoas e salvou a única família virtuosa. Primeiramente, nem todas as ações de Javé são contra os inimigos do povo escolhido ou pessoas más, na maioria das vezes se voltam contra os próprios hebreus . E segundo, sendo todo-poderoso Javé poderia ter salvo as boas pessoas sem punir tão violentamente as más pessoas ( e tal pensamento é completamente arbitrário, já que os hebreus eram mais um dos povos que disputavam terra e comida, sendo o único crime das "más pessoas" disputar recursos com o povo escolhido ).

Uma defesa mais sofisticada para a aparente ação psicopata de Javé é contar a analogia da Mona Lisa: Se Leonardo da Vinci quisesse destruir o seu mais famoso quadro, a Mona Lisa, isso não seria considerado crime por ele ter criado o quadro. Se qualquer outra pessoa tentasse acabar com o quadro seria outra história porque tal pessoa não pintou a Mona Lisa e não tem direito sobre o futuro dela. Da mesma maneira Javé criou o ser humano e desse jeito pode decidir o que fazer com uma vida humana, inclusive ameaçar ou matar (!).

A principal falha desse argumento é usar uma das mais comuns e conhecidas falácias formais, a falácia da falsa analogia. Explicando de maneira leiga seria como apontar a analogia entre duas coisas, " X " e " Y ", que tem características distintas e apenas alguns pontos em comum, porém devido as grandes diferenças esses pontos em comum não se sustentam. Então a semelhança entre " X " e " Y" é apenas aparente. No caso o erro é comparar quadros com seres humanos. Quadros não são sencientes e seres humanos sim. Destruir um quadro pode ser algo que traga dano moral para as pessoas que o admiravam e para o criador, contudo o efeito negativo de sua destruição iria parar por ai. Dependendo da habilidade de um pintor, o quadro pode ter sido copiado  ou até recriado caso fosse a única cópia. Como os seres humanos são seres capazes de sentir sofrimento e únicos, o fim de um humano é algo bem mais emblemático. Não é possível recriar ou copiar um ser humano, sua morte não irá apenas trazer sofrimento para seus conhecidos, como também para ele mesmo enquanto estiver morrendo. É óbvio que o fim de qualquer homem é inerentemente superior ao fim de um quadro independente de sua importância histórica e artística. Da Vinci até poderia ter bagagem moral para destruir seus quadros, só que isso não significa que Javé teria a mesma justificativa para matar seres humanos. Essa comparação não tem pé nem cabeça e qualquer pessoa minimamente instruída consegue ver suas inconsistências.

Um apologeta mais insistente tentaria defender as ações psicóticas de Javé com a Teoria do comando divino (TDCD): todos os comandos proferidos por Deus estão certos, independente de suas consequências. Em outras palavras: caso uma pessoa assassine outra, isso seria claramente um ato imoral. Mas segundo a TDCD, caso uma pessoa assassine outra seguindo as instruções de Javé, isso seria um ato moral apenas por ser um comando divino. William Lane Craig usa esse argumento, adicionando a ideia de que Deus ordena a maldade para lembramos que é possível se refugir em sua bondade e aceitarmos Jesus como o único salvador. Pois é...

Essa posição implica em vários problemas. Se alguma ordem divina é boa apenas por ser uma ordem divina, no final os comandos de Javé seriam meramente comandos sem qualquer padrão moral. Não existe algo que Javé se baseie para executar o que executa além de seu próprio comando, logo não existe uma natureza divina intrinsecamente boa, apenas comandos moralmente vazios. Dizer que Deus ordena algo de ruim para buscarmos o moralmente correto também implica em problemas, pois não faz sentido Javé desprover a vida humana de uma condição moralmente satisfatória ( um mundo sem violência ) para ordenar o mal no mundo e então prover os seres humanos em uma condição moralmente satisfatória ( buscar a vida cristã ). Por outro lado, se Javé se baseia em um arquétipo moral para seus comandos, existe algum padrão moral acima de Deus[1].

Outro argumento é o do Caos (ADC): o ser humano tem uma percepção limitadas da natureza das coisas quando se comparada a Deus, então não conseguimos ver o que Javé realmente deseja quando ordena ou deixe que aconteça alguma coisa ruim atualmente. Por exemplo, caso ocorra um genocídio de proporções enormes no Oriente Médio, no futuro esse acontecimento motivará a criação de uma liga mundial que consiga evitar todas as guerras no futuro. Mas com nosso entendimento limitado, apenas conseguimos ver o horror do genocídio e não entendemos como isso pode ser benéfico no futuro.Isso posto, Javé continuaria sendo um ser moral a longo prazo. Em outras palavras, não existiria sofrimento gratuito.

Só que desse argumento podemos tirar péssimas consequências para quem deseja defender a moralidade de Javé.  Quem defende o ADC infere que Deus está promovendo a bondade no final das contas apelando para a nossa limitação epistemológica. No entanto podemos usar o mesmo artifício e dizer que toda a bondade do mundo faz parte de um plano a longo prazo de um Deus maligno para promover a maldade. Essa é a estratégia de Stephen Law[2], o qual argumenta que a maioria das teodiceias favoráveis a existência de um deus benevolente coexistindo com o mal  pode ser aplicada a favor de um deus malevolente coexistindo com o bem. Por exemplo: o livre-arbítrio existe para que possamos fazer acções boas moralmente mais virtuosas do que caso fossemos obrigados a desempenhar apenas atos bons ( e sermos apenas marionetes de Deus ). Da mesma forma, um deus maligno possibilita o livre-arbítrio para que possamos fazer ações moralmente más de maneira mais virtuosa do que fossemos obrigados.  Na conjectura de Stephen Law o ADC não foge à regra. Caso um deus malévolo salve ou deixem que salvem mil crianças em uma guerra, no futuro esse acontecimento motivará um mal maior ainda, pois, por exemplo, uma dessas crianças irá se tornar um poderoso ditador que iniciará a terceira guerra mundial. Logo, se algum teísta alega que um ato aparentemente mal de Javé no antigo testamento no futuro irá se demonstrar algo bom, podemos igualmente apontar que os atos bons de Javé se demonstrarão um plano perverso, inclusive o sacrifício de Jesus.

DEUS INSTAUROU UMA LEI DE PURO AMOR 

Imagine que uma criança tenha perdido a mãe e ficado apenas aos cuidados do pai. Ele se mostra um homem implacável para educar o filho da maneira mais rígida possível. O filho comete um erro e é espancado, as vezes de uma maneira brutal e deixando ele com marcas de chicotadas nas costas. Em outras fica recluso em seu quarto por dias sem nenhum entretenimento. De certa maneira o pai de vez em quando demonstra seu amor premiando o filho, só que em geral a repressão subjuga qualquer manifestação de amor. Como resultado final, o pai não consegue de maneira satisfatória educar o filho. De repente, o pai muda de estratégia. Começa a tratar sua cria da maneira mais afetuosa possível. Os resultados surgem logo. O filho vira uma pessoa amável e respeitável . Será que não era melhor o pai ter começado a o educar de maneira amável desde o inicio ? Apesar do filho ser virado um adulto realizado, as marcas de sua educação irão o traumatizar para sempre. Bom, podiriamos defender o pai apontando que ele não sabia como educar no inicio, conhecendo somente os atos impetuosos o qual fora tratado na sua infância.

Essa analogia se enquadra perfeitamente com os atos de Javé. A partir do novo testamento surge a regra de ouro, " amar o próximo como a si mesmo " e supostamente parou de ser uma divindade que cometeria atos crúeis, restando a culpa aos escolhas humanas ruins e ao diabo   ( alguns cristãos defendem que para isso Javé aboliu a lei mosaica, enquanto outros acham que ele não a derrubou ou a derrubou parcialmente. Não cabe aqui discutir isso ). A diferença é que Ele é onisciente, onipotente e onipresente e já deveria saber que o seu sacrifico pela humanidade era a melhor opção desde o inicio. Não faz sentido Deus ter enviado seu filho para se sacrificar pelos pecados da humanidade somente milhares de anos depois de ter criado os seres humanos. Até lá todos ficaram submetidos à ameaças, mortes e leis obsoletas feitas pelo próprio Javé ( lembrando que existem acontecimentos fora do escopo do livre-arbítrio cometido pelo próprio Deus, tal como vimos. Em outras, aplica leis que cabe as pessoas escolherem, contudo tem punições absurdas e desnecessárias).  Na analogia do pai e do filho acima, parece errado perdoar o pai completamente apesar de ele ter mudado seu comportamento, pois o filho sofreu desnecessariamente, imagine então quando o pai sabia desde o princípio qual era a melhor opção ! Justificar que Deus institui uma lei de puro amor e esquecer o passado é justificar a incompetência divina e pessoas terem sofrido desnecessariamente.


FONTES:
http://www.bibliadocetico.net/index.html
[1] https://blogdomensalao.wordpress.com/2012/09/12/a-ilusao-crista-da-superioridade-parte-2/
[2] https://rebeldiametafisica.wordpress.com/2011/11/09/o-desafio-do-deus-malevolo/

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